Território volátil de densidade instável e sujeito à combustão, em que os gêneros se cruzam, se devoram e geram mutantes de orgânico e digital, harmonia e ruído, onírico e irônico. Surgiu em 2003 com Leandra Lambert, um computador, um microfone, um monte de letras em caderninhos caóticos e o desejo de voltar a experimentar ideias, dores e devaneios sob a forma de música. O resultado eventualmente se aproxima de um estranho pop, mas o processo é sempre experimental: brincar com possibilidades, flanar pelos sons, mergulhar no desconhecido, investigar fronteiras e rir no final.

O inacabado e o errático, o indefinível e o desencaixado orgulhosamente fazem parte de sua história: contraste irônico a uma época e a um meio tão habitados por/habituados com "produtos" bem encaixadinhos nos moldes do mercado, que seguem tão docilmente a (i)lógica consumo.

O fogo consome, mas é de outro jeito.

Nenhum álbum concluído até meados de 2010! Motivo de comemoração: talvez fique pronto amanhã, por uma vontade pessoal e urgente de conclusão, por um desejo de buscar uma maior proximidade com o outro. Talvez nunca fique pronto,  um não-CD, um não-produto. Não importa. Não faltam músicas para um ou dois, mesmo três álbuns. E nestes quase sete anos foram incontáveis experiências, secretas ou compartilhadas, de amor, humor e terror, em meio a dezenas de shows, ensaios e gravações demo. Foi tudo uma grande performance. Um drama dionisíaco. Uma gargalhada ao fim da cena. E em maio de 2010, uma surpresa: a indefinível versão DIY da erótica "Kiss Kiss Kiss" de Yoko Ono no ábum "Mrs. Lennon", ao lado de grandes cantoras como Cida Moreira e Angela Ro Ro e de nomes do universo alternativo brasileiro como Digitaria e Tetine.

Não se sabe bem como, uma das músicas tinha ido parar na coletânea Body Rapture e outra na trilha do longa "Conceição - Autor bom é Autor Morto". Alguns shows aconteceram em festivais internacionais como FILE Hipersônica, Machina e Motomix Art Music - que teve em seu line up de Franz Ferdinand a Adult, de Radio 4 a Modeselektor, de Art Brut a Annie, de Peter Hook a... um pouquinho de Voz del Fuego. Ou foram em lugares como Circo Voador, Fundição Progresso, Parque Lage, Cine Odeon, Cine Íris, Teatro Odisséia e casas noturnas como Vegas, D-Edge, Dama de Ferro, Muzik. Alguns shows foram ao lado de figuras como Fischerspooner e Larry Tee; outros não foram mais que pequenas jams abertas ao público ou lives em pequenos espaços underground como Plano B no Rio, festa Mobília Errada em SP, Devassa em Florianópolis.

Em 2004 surgiu uma banda fixa acompanhando Voz del Fuego em vários desses shows, a Lingerie Underground, que se dispersou em 2007 - mas a participação de outros músicos (e não-músicos) continuou acontecendo, tendo Flávia Goo na guitarra (Dziga Vertov, Semana Saga), Flávia Couri no baixo (Autoramas, Doidivinas) e Rodrigo Marçal na co-produção em estúdio (Arpx) como as mais constantes. Atualmente, a produção vem sendo dividida com Alexandre Mandarino.

Uma só transformação vale mais que muitas certezas.

Liberdade sonora, introspecções delirantes, pontes fluidas até o outro, rompantes hilários, dionisos amorosos e aquelas luzes dançando, lá no alto.


Histórico

Rio de Janeiro, anos 90: duas bandas de garotas adolescentes bastante incomuns tocavam pelo underground da cidade. Uma delas era a inhumanoids! de Leandra, uma das únicas do Rio (e do Brasil) que fazia uma mistura de punk e pós-punk com eletrônico dançante, um senso de humor bizarro e performances imprevisíveis. Se hoje em dia essa mistura se aproxima de uma fórmula que se espalhou com algumas variações, na época soava estranho, surpreendente, diferente do que acontecia por aí. A outra banda era a Shivery, de Flávia Goo, com sua guitarra atmosférica e distorcida, de afinações e harmonias incomuns.

Muitos anos depois, já no séc XXI, o encontro entre essas duas, que só se conheciam por demotapes, acabaria em bandas, no plural: Lingerie Underground, que acompanhou Voz del Fuego em vários shows de 2004 a 2007; Mulher Espacial, jam band de espírito psicodélico; e Dziga Vertov, trio experimental bem-humorado e aventureiro. Em 2008 Leandra também passa a integrar o novo e inclassificável projeto de Rogério Skylab, Skygirls; e o Luna Chip, de improvisos eletrônicos com circuit bending e afins.

Por seu lado mais irônico, bem humorado e de brincadeiras com o pop, Voz del Fuego já foi confundida com "gêneros", "estilos", "tendências" e "comportamentos" com os quais nunca se identificou de fato. Se algo pode definir Voz del Fuego, é o mutável, a porosidade, a fronteira.

Um pouco do que já disseram:

“Desde 1992 ela já fazia electro-punk, quando nem se falava no assunto” (Rolling Stone BR, 01/2007 - OBS: matéria bacana, mas esse papo  que tá lá de "conquistar o universo" e "cinismo" foi delírio jornalístico, mas enfim... Ironia sim, cinismo não, pô! Tocar "Pra Ficar Bonita" em um festival patrocinado pela revista Capricho foi muita ironia. Ou cinismo? hm...)

 “Tudo muito bem feito, com conhecimento de causa. (...) O grande mérito da Leandra é que ela convence, em todos os sentidos: seja na música, na performance ou no discurso. Nada nela soa falso, sinuoso, dissimulado. (Rock Press, 06/2007 - OBS: considero a parte da Deize Tigrona e da maconha um tanto... ahn... romanceada. A comparação depois dos "punhos de ferro" foi sacanagem, mas tudo bem. Matéria legal, divertida.)

“O som bem animadinho comandado pela ruiva Voz del Fuego animou a platéia, que se despediu da banda com aplausos.” (rraurl, 09/2006 - OBS: cobertura do primeiro dia de shows no Motomix Art Music 2006 em SP)

“Elas incendiaram o Dama” (Mix Brasil, 11/2005 - OBS: link para o que restou online da cobertura desse show na festa de abertura do festival. O CD Seria  "Love Hertz", mas demorou, uns gringos usaram o nome e também... tudo mudou.)

OUÇA AQUI (MySpace).

Ou aqui (Fiberonline).

 

 

 

Imagens: 1- M.A. Brandt/Leandra Lambert,  "Fogo-Fátuo", As 4 Marias; 2- Márcia Bellotti, VDF live; 3-Loulou Gutemberg, VDF ao vivo no Circo Voador; 4- Leandra Lambert, Autoretrato com Rosas Vermelhas ao Scanner.