Na Arte Sonora (e na primeira pessoa)
Sob as mais diversas formas, a música esteve no centro do que eu fazia na maior parte da minha vida até agora, mas outras formas de lidar com os sons, as palavras e a performance sempre estiveram presentes, explícitas ou latentes, mais ou menos erráticas. Muitas idéias existiram durante anos apenas como anotações rabiscadas em cadernos.
Há tempos imaginava e concebia projetos que pareciam um tanto delirantes, de difícil concretização pelo custo, pela tecnologia que eu não tinha à mão. Um exemplo: em 2000, a partir de uma música que fiz ainda com o inhumanoids!, "Atlântica" - sombrio electrofunk-samba motivado pelo avesso agônico às festividades dos quinhentos anos de colonização do Brasil - veio a idéia de uma outra "Atlântica" bem diferente. Só em 2009 suas possibilidades de realização começaram a se delinear.
Não percebia que certos projetos podiam se situar em um campo de fronteiras indefinidas e polêmicas que vem sendo chamado de Sound Art. Já havia participado das primeiras oficinas de Circuit Bending realizadas por aqui e novas conexões se formavam, mas só em 2009, em meio a esboços incertos, fui informada por um amigo sobre um workshop organizado pelos artistas Franz Manata e Saulo Laudares na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Finalmente foi feito o link e, em meio a novos estímulos, informações e projetos que ainda não permitiam uma realização imediata, também surgiram ideias simples, diretas e rapidamente viáveis - de baixo custo.
Ao fim do workshop foi realizado um happening com 10 participantes, no qual me apresentei com o Dziga Vertov e o Voz del Fuego, fiz música para as "Três Torres" com Alexandre Mandarino e apresentei os trabalhos que aqui estão presentes em versões online, para que se tornem, sob uma outra forma, acessíveis a mais pessoas: "O Livro da Vida I", "A Caixa Vermelha" e "ATENÇÃO: silêncio". Cada uma dessas foi a primeira e mais simples de uma série imaginada de Caixas Vivas, de Livros da Vida, de Telas do Silêncio.
Nestes que foram apresentados, os sons são produzidos apenas com participação, entrega, cumplicidade. Existem na imaginação, na memória, no afeto. Cada um realiza seu solo interior. Som, texto e imagem em feedback e habitando-construindo espaços-tempos. Nem sempre faço uso da tecnologia eletrônica ou mesmo da emissão de sons: procuro provocar a percepção, evocar a memória afetiva, despertar pequenas transformações curativas, sugerir a criação de paisagens sonoras e ambiências oníricas através de textos, instruções, objetos, imagens e situações. Evidente que nada tenho contra tecnologias eletrônicas, ao contrário - e o Circuit Bending está aí também para provar que elas podem ser baratas, recicladas do lixo tecnológico, acessíveis, totalmente DIY e altamente criativas - mas ao torná-las facultativas, busco lembrar que tais aparatos não são indispensáveis para agir neste território.
A relação procurada não é necessariamente exteriorizada no momento de contato com estes trabalhos: criações, sentimentos e conclusões podem ser silenciosos ou compartilhados e as possíveis transformações tem a liberdade de ocorrer no espaço e no tempo de cada um, estabelecendo-se fronteiras gentilmente. Sem forçar proximidades festivas artificiais ou procurar um choque de consequências questionáveis. Nem zona de conforto, nem zona de conflito: zona de respeito ao espaço-tempo de cada um.

Há projetos em que conflitos e tensões estão mais presentes - Atlântica é um exemplo. Ao final de 2009, após participar de uma oficina de projetos com Antoní Muntadas e aulas com Ricardo Basbaum na UERJ, este processo começou a ser problematizado e a encontrar suas possibilidades de realização. Em 2010, ingressando no Mestrado em Arte e Cultura Contemporânea da mesma universidade, sob orientação da Profa. Dra. Leila Danziger, talvez se realize.
Em "Atlântica", a busca de questionamentos agudos se dá com humor, afeto e proximidade. Porque agressividade, cinismo e distância são regras vigentes, mesmo que maquiadas com discursos de marketing empresarial e de auto-ajuda que exaltam o "investimento" no "afeto" e na "postura criativa e adaptável" em "redes sociais e de relacionamento", simplesmente porque isso é mais lucrativo para "o indivíduo e as instituições", funcionando como um óleo benéfico à manutenção equilibrada da máquina do mercado. Nada mais cínico do que submeter potências criadoras a essa domesticação, nada mais distante do reconhecimento do outro que essa (simulação de) proximidade reduzida à procura de obtenção de um melhor encaixe pessoal dentro da estrutura corporativa, nada mais agressivo que a docilidade fluída forçada de cada dia. O que podemos contra isso? Que formas de resistência conseguimos encontrar? Quais os outros possíveis?
Isto é um convite. Aproxime-se quem puder.
É só um início.

Sobre o workshop e o happening:
"No dia 17 de Julho de julho de 2009 aconteceu na Escola de Artes Visuais do Parque Lage a exposição ARTE SONORA, como resultado do workshop organizado pelos artistas Franz Manata e Saulo Laudares.
De caráter pioneiro, na escola e no Brasil, o curso possibilitou uma visada sobre a construção do pensamento e da produção sonora no Século XX. Apesar de ser um fenômeno recente, pois se insere definitivamente como um campo sensível da arte contemporânea a partir dos anos 1990, a arte sonora foi abordada nos seus primórdios com os Futuristas e Dadaístas, passando pelo desenvolvimento da tecnologia como suporte para criação, abordando o legado da música eletroacústica e suas reverberações nas produções conceituais do pós-guerra, até chegar à relação desenvolvida entre arte e música no Brasil.
“Estávamos interessados em organizar, sistematizar e disponibilizar nossas fontes de pesquisa que acumulamos ao longo dos últimos 10 anos”.
A abordagem dos encontros teve um caráter interativo e multimídia – os artistas apresentavam textos, imagens, áudio e vídeo em um ambiente “imersivo capitaneado pela música”. Segundo os autores: “esse curso só poderia acontecer, em sua integralidade, no contexto atual da Era da Economia da Informação com as ferramentas dos sites de compartilhamento e busca de áudio e vídeo”.
A idéia central do workshop era propiciar um ambiente para o desenvolvimento dos trabalhos dos artistas a partir das informações fornecidas e, ao final dos encontros, apresentar a produção. “Nossa grata surpresa foi perceber o envolvimento do grupo e a construção consistente de cada poética”.
A mostra teve o caráter de um happening - uma exposição de um dia - tom objetos sonoros, instalações, performances, dj sets e shows de música experimental e eletrônica evocando o universo criativo e comportamental em que as obras foram produzidas.
A exposição contou com apoio do NAT (Núcleo de Arte e Tecnologia) e da Direção da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, mas só foi possível graças ao envolvimento de todos os artistas participantes."

Fotos: 1- Alexandre Mandarino, Dziga Vertov no Parque Lage; 2 e 4 - Alessandra Bergamaschi, Leandra Lambert com "A Caixa Vermelha" e início do "Arte Sonora" no Parque Lage; 3- Alexandre Mandarino, "As Três Torres" de AM e LL.

