Isto é um convite. É só um início. Aproxime-se quem puder.

Sempre em construção-destruição-reconstrução.

A busca dionisíaca de uma poética. Brincar com sons, palavras, imagens, movimentos, situações, silêncios - disto se trata. Nada separado em compartimentos estanques, são territórios que se cruzam, fronteiras cada vez mais manchadas de um todo um tanto caótico. Música, texto, cinema, performance, arte sonora - tudo vem de uma mesma fonte, desejo, procura.

 

"Brincar" não como superficialidade e falta de compromisso, ao contrário: como afirmação de um compromisso total com os atos em si, a intensidade da entrega, uma alegre disposição de atenção ao momento, ao que se faz. Brincar como oposição ao trabalho que visa mais os fins que os caminhos, brincar como alegre ato de fazer algo.

 

Este site faz parte deste processo. Cresce e se reconfigura, uma hora mais pessoal e divagante, outra mais voltado para o que vejo e escuto por aí: fronteiras também borradas, essas do interior/exterior. A participação é sempre bem-vinda. O "Livro da Vida" só existirá de fato com participação.

 

Meu foco, por muitos anos, esteve em uma música que surgia do cruzamento espontâneo de pop e experimental, usando o mais orgânico dos intrumentos - a voz - com timbres sintéticos  e equipamentos eletrônicos.  A voz pode ser considerada o “rosto sonoro” e implica em uma ética, em um reconhecimento do que fala, canta, grita; esta dialoga com máquinas que produzem sons, nas quais se cria música de forma abstrata e conceitual, sem que seja necessário o ato artesanal de “tocar um instrumento”.  Paradoxalmente, o improviso, a performance, o uso de objetos do dia-a-dia e a abertura a participações fazem parte dessa história.

 

Em meu longo e tumultuado envolvimento com a música, algumas viradas e pausas aconteceram: por questões pessoais, por gosto, por vontade, por causa de um sonho ou intuição (sim, eles ainda existem); nunca para acompanhar "tendências", flutuações mercadológicas. Ao contrário: uma das características constantes foi o fato de tudo ser feito de forma espontânea, me divertindo ao experimentar e usando o que havia por  perto - fosse um teclado de brinquedo com defeito ou um bom sintetizador, um computador no meu quarto ou um belo estúdio disponível.

 

O "Do It Yourself" do punk 70s aplicado a uma mistura que, perceba-se ou não, é o resultado de um background que inclui a trilha sonora da minha infância, da minha família - música brasileira, rock psicodélico, erudito, funk, pop e disco - da minha adolescência - punk, pós-punk, indie rock, industrial, Kraftwerk, synthpop, EBM, acid house - e do que foi surgindo e/ou fui descobrindo depois dos vinte - do techno a Stockhausen, do electro à música concreta, do trip-hop ao jazz, das origens aos prenúncios, do retrô ao inovador, do experimental ao popular.

 

No decorrer desse percurso, outras formas de produção sempre estiveram presentes, de forma mais ou menos esparsa: escrita, cinema, fotografia, pintura, projetos de instalações, objetos e performances que ainda não se concretizaram, o grupo de rituais "As 4 Marias". A percepção mais clara de que toda essa bagunça tinha um eixo agregador surgiu apenas em 2009, com meus primeiros projetos e experiências conscientes com arte sonora e participativa.

 

Por isso, é só um início; mas a história é antiga...

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VOZ DEL FUEGO foi um nome usado de 2003 a 2009 em meu projeto musical, depois do fim do inhumanoids! (1992-2000). Fez parte do extinto Efeito Coletivo, contou com várias participações e gerou a formação de uma banda, Lingerie Undergound (fim de 2004 a meados de 2007). Comecei a testar o nome Voz del Fuego em um blog e em uma semana já havia amigos me chamando assim; além do nome de um projeto, tornou-se também um curioso codinome. Agora, neste site, agrega atividades em que estou envolvida, se transforma em algo mais que nome-de-projeto e codinome-de-pessoa. O que é coerente com sua origem...

Tal nome surgiu da fusão de Luz del Fuego, alcunha da libertária dançarina brasileira Dora Vivacqua; e de Voice of the Fire, livro do peculiar escritor inglês e mago anarquista Alan Moore. A intenção era usar um nome que fizesse referência à voz, "o rosto sonoro" que sugere uma ética, elemento de comunicação e poder ao alcance de todos; e à transformação extrema e energética simbolizada pelo fogo.

Queria que fosse um nome facilmente compreendido mas que não fosse em português, fazendo referência a um universo mais amplo, mas focado na América Latina - da qual muitos brasileiros gostam de se sentir e se colocar à parte, num resquício de ufanismo nacionalista reacionário, embora muitas vezes disfarçado de "esquerdista" e "defensor das raízes". Como já disse Hélio Oiticica, "as raízes já voaram faz tempo, viraram frutos e sementes e outras árvores". Ou algo assim, que não estou com esse livro aqui agora. Jorge Luis Borges defendeu a teoria de que as "raízes" dos que nasceram na América estão aqui e também na Europa, que não precisamos nos prender a nacionalismos e podemos beber na fonte de diversas culturas com, ao mesmo tempo, propriedade e distanciamento crítico, profundidade e leveza. Por aí...

Em tempo: diz a lenda que a nudista Dora Vivacqua adotou a alcunha Luz del Fuego por sugestão de uma amiga travesti, inspirada pelo nome de um batom argentino. Em coerente homenagem, uma foto sem roupa e com batom vermelho.

 

 

 

Foto: Leandra Lambert, Autoretrato com Caixa Vermelha.