A força dos precários
Procuro a força porque sem ela sucumbiria de novo ao abismo - e haveria retorno mais uma vez? Nunca se sabe.
Nunca sabemos. Somos todos precários, não sabemos nos fazer entender, entendemos mal, confundimos compreender com prender, perdoar com tolerar o intolerável, dizer "não" com dizer "que se foda". Pouco conhecemos do que é "a medida", "o limite". Todo conhecimento é pela metade, quando não menos. Toda sabedoria é insuficiente e somos todos um tanto tolos - quem não percebe, mais tolo ainda.
Espantava-me com os que se faziam de fracos, coitados, vitimados, boas almas sofredoras ou divertidas e desencanadas. Espantosa mesmo a facilidade com que não precisavam de força - sucumbiram de fato algum dia?
Os que diziam "suavidade" após aplicar uma baita rasteira, os que falavam em "verdade" depois de (se/te/me) enganarem, os que proclamavam "desinteresse" cobrindo uma lista de grandes carências devoradoras e ambições frustradas. Os que tanto falam "amor" com ódio recolhido, espumando ali, no cantinho escuro, que vemos quando temos a coragem de tirar os óculos de rosas perfurmadas do focinho. Todos os pequenos monstros se contorcendo. Isso não me espanta mais.
Gosto dos que não escondem esqueletos sob flores e fofuras e discursos criativamente elaborados para livrarem a própria cara. Gosto dos esqueletos que dão a caveira a tapa. Toda caveira é feia e está mesmo rindo da sua cara, meu amigo - seja lá quem for você. Gosto dos que odeiam com todas as palavras e palavrões - não dos que exercem seus papéis de bonzinhos e fazem a caveira dos outros pelas costas, como boas "vítimas". Coitados.
Gosto dos fortes - porque sabem de fato sucumbir. Porque sabem que, com certas coisas, não se brinca - existem algozes e vítimas reais, colega. Alguns morrem ou sofrem agora mesmo nas mãos de outros. Isso não é retórica. Não é brincadeira ou papel a (des)encarnar em letras imateriais. Isso é feito de sangue, nervos, desespero, fim.
Gosto dos que sabem na carne e na vida da dor, do abismo, da morte.
Esses, posso querer por perto.
Há uns vinte anos, escrevi:
EU NÃO ESCREVO, EU SOBREVIVO.
Pois é.

Leandra Lambert
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