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Sexta-feira
Mar262010

A favor do contra - ou não!

Um hábito me acompanha desde a infância: implicar com unanimidades, perguntar "por que?" até irritar o outro, ser do contra só pra ver até onde o outro está disposto a ir, que argumentos e discursos inflamados serão derramados, até onde a história vai. Espírito de porco? Não é nada disso: eu mesma não tenho certeza de nada e quero conferir se outro tem. Se tiver, espero que seja balançado - ou não. Quero ver se eu mudo de idéia, se o outro muda, se todos mudam. A vontade é apenas de ver, ouvir e me divertir com certezas abaladas, unanimidades questionadas, argumentos hilários ou precisos e preciosos. Para tal, já falei mal de bandas que eu amava em mesas de bar, já incensei antipáticos polêmicos e detonei simpáticos amáveis, já disse que algo que eu achava chatíssimo era muito melhor que outra coisa (que eu também nem gostava, ok)... e por aí vai.

Já fiz isso inclusive aqui nesse blog. Devido a uma aula divertidíssima no mestrado outro dia, lembrei especificamente de uma das minhas "mentirinhas provocativas", em que eu dizia estar de saco cheio de papo de jovem-guarda e que a bossa-nova era melhor. Bem, a verdade é que sempre achei essas duas vertentes da música brasileira de outrora, a  "chique" (?) e a "cafona" (?), em geral, chatas pracaralho. Questão de gosto, "de estômago", diria Nietzsche. Acho as duas muito levinhas, chatinhas, diminutivazinhas, e é um tal de barquinho pra cá, pato pra lá, e calhambeque bibi, e sabiá... ih, nada disso aí é comigo.

Não acho a bossa-nova melhor por ser refinada. Claro que há belas músicas (especialmente Tom Jobim), tem o humor do João Donato, e por aí vai; mas em geral aquele papinho Ipanema idílica elitista me cansa, e o violão blemblem me irrita e quero mais que o pato e o sabiá peguem um barquinho lá pra casa do caralho.

Mas assim como nos anos 90 e início dos 00s havia pencas de modernos clamando influências da bossa-nova, agora há pencas de modernos  "resgatando" a jovem-guarda. O que torna a jovem-guarda uma espécie de nova bossa-nova, paradoxalmente. Tá, teve gente fazendo coisa boa e divertida com isso - a Karine Alexandrino por exemplo - mas, putaquepariu, em geral já deu no saco. É, estou desbocada - acho palavrão lindo, desopila que é uma beleza. Há muitos anos faço a defesa poética do palavrão espontâneo, sem ser forçado "pra chocar", o palavrão honesto, alegre, necessário.

O que me incomoda na jovem-guarda não é a suposta cafonice, a tentativa de ser rock, o fato de ser popular e rejeitada pelas elites - ao contrário, isso tudo me agrada. O que me incomoda é que, pro meu gosto, foi comportada demais, pegou leve demais. Eu queria mais, será que não podia ser mais... maldita? Não foi, ok, foi o que foi. Assim, no pretérito, PASSADO, FOI. Aí está a questão: para que este eterno "resgate"? Parece que há um medo geral de tudo o que não chega com sua carta de referências históricas, filiações explícitas, releituras bem explicadas, raízes claramente fincadas no passado, com reverência. Como se tivessem medo de que nosso passado cultural pode ser roubado a qualquer instante. Trauma da ditadura?

O problema é que, com isso, ficam sequestrando o futuro e embolorando o presente.

 

Reader Comments (2)

Muito bom! O emo é a revolta do mimo contra a impossibilidade de serem ainda mais mimados!

Março 26, 2010 | Unregistered CommenterAlexandre Mandarino

Pois é, mas o que irrita nos emos é a submissão de vítimas a esse esquema de consumo todo calcado em uma rebeldia totalmente fake, inofensiva e pirante... isso que é grotesco... o mimo é só uma parte - a dos pais sem noção - mas a questão é maior.

Maio 4, 2010 | Registered CommenterLeandra Lambert

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