De verdade
Há pouco mais de um ano percebi que havia se desencadeado em mim um processo de mudanças inicialmente imperceptíveis para os que conviviam comigo. Transformações que foram se intensificando e criando novas estruturas, com delicadeza E violência, em meio ao meu caos pessoal. Você já teve seu caos pessoal? Cultivei o meu com a dedicação dos devotos por muitos anos - mas mesmo isso envelhece e precisa mudar. Na mudança, um outro caos nasce com mais vigor, porque não é de fileirinhas retas de soldadinhos, etiquetas e arquivos lineares em cubos perfeitos que as coisas são, certo?
O amor coagulou, se esvaiu, dissipou-se no escuro e depois se refez em mim - e para mim - como nunca antes. Amizades se transformaram ou tiveram fim, vínculos novos surgiram, se fortaleceram ou se romperam - inevitável. Reencontro às vezes os que se apegaram tanto à própria desconstrução-destruição que não percebem a velhice conformista, covarde e escapista do que ainda acreditam transgressor. Felizmente também há muitos que tem a lucidez de saber que estão (estamos) todos ali levando a vida do jeito que se consegue naquele momento, e só: sem justificativas esfarrapadas e falsos "heroísmos marginais", sem julgamentos, culpas e condenações. De qualquer modo, acho que há sempre medo da mudança - e todos temos o humano direito a isso. Quem nunca teve medo da mudança, da morte, da dor, do vazio e do abandono que atire a primeira pedra, a primeira guimba, o primeiro copo, o primeiro remedinho, a primeira mentira "filosófica" ou religiosa. Ninguém disse que era fácil.
Sem anestesia? Dói mas é bom. A onda é forte. O bagulho é doido.
Eventualmente também recebo notícias, querendo ou não, dos que, "ao contrário", se acreditam transformados por forças, posses, posições, estímulos e afetos externos, inevitavelmente transitórios, sempre um tanto superficiais: quando se precisa de curas que só podem vir das entranhas, de nada adianta buscar e "encontrar" do lado de fora. São mudanças motivadas e sustentadas por crenças que se firmam apenas no próprio desejo de crer - e das posteriores interpretações equivocadas que surgem dessa crença. Crença fome, crença apego, crença desespero - comumente coberta de sorrisos, "bondades" e frivolidades. Crença que entrega seus medos e demônios sem perceber, ao tentar escondê-los atirando a batata quente nos outros, sempre os outros, os maus, os podres, os mentirosos, os que não se confessaram, os possuídos, OH! Com isso, exibem no picadeiro mais de seus próprios ratos escondidos com rabos de fora. Sei o que é isso, acho que todos sabemos, ainda que muitas vezes de forma medrosa e pouco consciente. Também temos todos direito a isso. A questão é: até quando fingir que se quer isso? Essa miséria enfeitada?
Eu não quero mais isso. Agora tenho uma outra vontade. É só o início: finalmente!
Que cada um tenha a sua vontade e que cada uma seja única e insondável - só assim podem ser vontades de verdade.
Leandra Lambert
"Equação emocional" simples ao ser formulada mas possivelmente difícil de ser resolvida:
Ser é diferente de se sentir. Se sentir não é solução.
Exemplos fictícios - com os quais muita gente pode se identificar, porque nada disso é novo, original, único ou heróico.
1- "Se sentia" um gênio incompreendido porque enchia a cara e se acabava todo dia e entendia muito de/do que outros faziam em a)arte contemporânea e filosofia clássica b) poetas malditos e cinema marginal c)música experimental e drogas andinas d)guitarras semi-acústicas e tatuagens old-school e) seriados sci-fi e figurinhas de chiclete. Quando sentava a napa então... ô genialidade!
2- "Se sentia" um grande transgressor por fumar um cigarrinho em ambientes fechados, já que agora é proibido. E um viva às multis que lucram com o cigarro, um viva aos milhões de doenças horríveis e mortes miseráveis, "podes crer, maluco! Uhu!".
Conclusão: não adianta nada ficar "se sentindo". Continua-se sendo a mesma merda.
3- Sentia-se não amado por quem o amou e amado por quem não chegava nem perto do amor imaginado. Sentia-se execrado por pessoas que gostavam dele e se sentia adorado por pessoas que o humilhavam. Nutria mágoas e ódios injustamente e adorava de coração muitos que não mereciam toda essa consideração. Seus amores e ódios eram equívocos justificados pela certeza de seus sentimentos. E um pouco de equilíbrio? Tão difícil...
Pronto, desopilei. Precisava, ah! Passou.


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