Fiquei rosa pálido, entre o bege e o choque.
E não teve graça alguma.
Tarde de hoje: saí às pressas, compromissos. Quase em frente ao prédio, um dos meninos "crackheads" que perambulam por aqui está atravessado na calçada, desacordado, tremendo um pouco, com um filete de sangue na perna. Algumas pessoas curiosas por perto - mas não muito perto. Desacelero o passo, eu e minha perplexidade, procurando o celular na bolsa enorme pra chamar os bombeiros. Escuto a sirene - alguém já chamou, o socorro já chegou, para mais à frente. Eu e uma outra mulher preocupada fazemos sinal para indicar onde o menino está. Ao redor, nada mais que leve curiosidade. Risonha, até.
Alguém diz que foi uma moto que atropelou e saiu fora. Diz rindo. Sigo meu caminho cada vez mais perplexa e, uns cinco passos a frente, vejo uma das manicures do salão da rua às gargalhadas, chamando uma amiga para ver. Tento entender o motivo de tanto riso, tanta alegria: não há motivo, não há alegria - é do menino mesmo que riem, num riso-esgar desprovido de qualquer empatia. Olho-as com pavor - é tudo o que consigo.
O calor está infernal, beira os quarenta graus. A cólica fica mais forte, o corpo mais fraco, a pressão mais baixa, a claridade excessiva, tontura, vertigem, a dor aumenta na cabeça, no ventre, mais dor. Tento andar um pouco, "espairecer". Não dura muito, sigo meio zumbi, não dá para seguir. Hoje não.
De volta à casa, ao quarto, ao ar fresco, ao analgésico. Água, muita água, uma pitada de sal. Um pouco de anestesia. O choro é seco: desidratei.
Psicopatas são incapazes de sentir e compreender "empatia". É uma deficiência mental e emocional gravíssima, uma real incapacidade. Porque sentir e demonstrar empatia tornou-se algo mais raro? A psicopatia anda trivial? Assim, entre universitários, cabelereiras e manicures?
Conservadorismos tacanhos, ameaças de censura na nossa cara, a total indiferença ao semelhante, o ódio ao diferente. Violência com várias roupas. E depois não se sabe porque tem tanta gente enchendo a cara com a primeira substância que aparece na frente.
Alguém REALMENTE sabe me dizer o que está acontecendo?

Leandra Lambert
Reader Comments (2)
É o que o Terrence McKenna falou: a volta do conservadorismo extremado como reação/gangorra a tudo que aconteceu entre os anos 50 e 90. Ou então a Kali Yuga, se bem que até mesmo aquela senhora indiana tem aspectos positivos. Ou o tal aspecto do Plutão que você me disse.
Está tudo bem assustador, sim.
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