As noites que se foram, os sonhos(?!?) de consumo, 2010 ali na esquina e os fantasmas boêmios que cantam em outros cantos
Quando comecei a "sair na noite" precocemente - antes da queda do Muro de Berlim - havia algumas características que me encantaram e que se opõem ao que vem acontecendo - e que me fazem desanimar de certos ambientes. Não é "a noite do Rio", nem nenhum lugar específico; não é que tudo o que acontece por aí seja "ruim", claro que tem bandas, músicos, não-músicos e DJs bons. O problema também não se resume a um "tu tá ficando velha": longe disso, aliás. O buraquinho é mais embaixo - e velha está a maior parte o que tenho visto e ouvido por aí. Na verdade, fui daquelas que insistiram até demais, misturando a realidade do que acontecia com um ideal que não se realizou: esta década que se vai foi mais de fantasmas que de noites vivas. Por mais que alguns momentos tenham sido realmente divertidos - e não mais que isso. Esse é o problema.
Anos 80s, dos quais peguei só o fim já adolescente, e início dos anos 90s: ressaca da ditadura e perplexidade diante da queda do Muro e do fim da Guerra Fria. Inflação na alturas e planos infalíveis, que costumavam fracassar como os do Cebolinha, pra fingir que estavam tentando "dar um jeitinho" nas coisas. It`s the end of the world as we know it - and I don`t feel fine. Era por aí. O rombo na auto-estima e no senso de segurança de um jovem nascido no Brasil era gigantesco - qualquer um que fosse minimamente honesto consigo mesmo e não tivesse nascido em uma das oligarquias nacionais, passou por isso. Independente da trajetória pessoal havia, e ainda há, um trauma histórico, coletivo.
Na época, havia pouca música brasileira feita por gente com menos de 40 anos - ou por gente com menos de 40 anos que não imitasse, com reverência e baba no canto da boca, o som de gente com mais de 40 anos feito há muito tempo, quando eram jovens. Descontando algumas excêntricas e louváveis exceções, não havia inovação e queríamos outros lugares, outros sons, outras vidas e modos de ser, possibilidades remotas. Que não nos lembrassem tanto o passado recente e a pasmaceira do presente de então. Que nos tirasse dali. Que viesse de e levasse para os lados mais estranhos de lugares distantes, através das músicas.
Em meio a esse escapismo vislumbrou-se uma exceção e uma saída, entre outras possíveis, com Chico Science e Nação Zumbi, mas aí... uma fatalidade, e depois a própria inovação pareceu fechar-se sobre si mesma. Teve gente pensando em teorias conspiratórias.
E onde estamos mesmo? Um certo retrocesso, talvez? A volta ao medo e ao escapismo com roupinha nova? Ou a mesma baba reverente no cantinho da boca? Ou o caô mesmo, puro e simples caô?
Bem, mas voltando àquela época; até havia coisas boas em meio ao niilismo, ao escapismo: mesmo que de um jeito torto e atravessado, podíamos ir às ruas e falar, falar muito, sobre o que quiséssemos. Gritávamos às vezes. Enquanto um (então novo)hippie chato "tocava Raul" pela enésima vez em uma praça, um punk não menos chato gritava "viva Bakunin e pau no cu de Deus" - nem tanto porque ele realmente quisesse isso, mas porque passou a ser POSSÍVEL. Mesmo na chatice, em atos bobos e em equívocos auto-destrutivos havia um grito muito verdadeiro e fundo em tudo o que se fazia, uma libertação, o exorcismo de um medo que já estava presente e palpável em todos nós quando nascemos - e do qual queríamos nos livrar, com urgência.
Em um certo meio que se encontrava pelas ruas, perto de bares e cinemas, e depois partia rumo a festas e shows, pessoas de origens sociais e gostos diversificados conviviam e se interessavam, em maior ou menor grau, por música, cinema, filosofia, literatura, arte. O bebum mais destruído podia iniciar um discurso sincero e ensinar alguma coisa sobre Artaud, Pollock, Nietzsche, Bob Dylan, Dylan Thomas, Gang of Four, Cabaret Voltaire, Fellini (estes três últimos com "duplo sentido). As dificuldades de uma pesquisa sem a existência da internet não atrapalhavam nossa busca em sebos de livros e discos, zines xerocados, fitas k7 ou VHS gravadas por conhecidos que às vezes só tinham partilhado uma mesa de bar uma única vez. Aproveitava-se pra diminuir a ignorância e aumentar a capacidade de reflexão e questionamento mesmo com altos níveis alcoólicos e/ ou de etcéteras - a perda de tempo e neurônios não era total. Equilibrismo de conceitos e copos.
Era nesse contexto e nesse clima que se saía para dançar - se você não era um playboy, bem entendido. As roupas que vestíamos, fossem elegantes, "dandys" e incríveis ou um grande erro estético, serviam mais como código de que se era um outsider, um não-playboy - e um não-consumista. Havia uma afirmação individualista, a vontade de ser e se mostrar único, mas dentro desse grupo variado e à margem. Comportamentos de rebanho e exibicionismo de grife não eram bem vistos. Às vezes rolava até uma patrulha chata: se a pessoa "se vestiu" demais, já podia ser chamada de "poser", por mais que fosse de um jeito corajoso, fora dos padrões. Como se inventar um figurino não pudesse ser divertido e criativo. Mas isso era detalhe, felizmente: o principal em uma noite underground era mesmo a música inventiva, provocativa e variada dentro do que não era mainstream. Tudo e todos eram ótimos? Claro que não, tinha "de tudo", inclusive babaquices e filhos-da-puta. Mas não era a regra, e algo de bom era saber que em uma mesma noite podia-se ouvir Kraftwerk, Bauhaus, Public Enemy, Sex Pistols, Pixies, Moby, Einstürzende Neubauten, acid house, a demo da banda pós-punk de um conhecido e, eventualmente, um Bowie, Stones, Prince ou até Madonna mesmo: porque regrinhas tem que ser quebradas e o rock'n'roll e o pop já tiveram seus grandes momentos.
Não ultimamente, a meu ver - ou melhor, ao meu ouvir. Lamentavelmente a doida maravilhosa da Amy Winehouse se destruiu muito cedo em deplorável holocausto ao culto das celebridades. Vinda de outros lados, aparece a Natasha Kahn/Bat for Lashes, que tem voz bonita, postura, conteúdo, forma e talento e não parece vulnerável a essas armadilhas. Gravou um primeiro álbum lindo e um segundo mais acessível (mas ainda assim digníssimo), tem clips muito legais e está aí no limiar do "crossover alternativo-pop". Nessa zona ainda indefinida em que ela se encontra, acha-se coisa boa. De resto, mesmo que exista gente com esse tal de "talento" (ou tá rápido demais?), tudo o que vejo nos "top of the pops" é pulverizado com muito pastiche, marketing, cristais swarowski, autotune, ânsia doentia por fama e dinheiro, melodias mais que derivativas, referências menos que medíocres e letras miseráveis sobre futilidades milionárias.
Chegou a tal da Lady Gaga diretamente dos bastidores da armação mainstream de coisas como Pussycat Dolls e, com um jeitão de quem estava levando o circo ao extremo, se vingando dessa indústria e debochando de tudo, causou impacto - mas na real, o deboche geralmente acaba corroborando o que talvez pretendesse cutucar. O que insistiram em chamar de electroclash, que o passado o carregue, teve muito disso. Bom, e dessa vez meus ouvidos não me enganaram: os fãs que me desculpem, mas Lady Gaga é ruim, vou te dizer...
Há quem ache divertido isso tudo do mundinho das celebridades, fofocas, dos videoclipes machistas - de homens ou de mulheres que só falam de como vão se vingar de homens - com carros e celulares como temática principal. Há quem diga que se diverte na farra do consumismo e do sexismo sem culpas. Eu acho entediante ao extremo - e um desastre, uma falsa celebração de tudo o que NÃO queríamos. Um grande vazio: inóspito, decadente, feio e frio vazio, por mais que os holofotes dançando nos cristais sobre os corpos bem moldados tentem alguma sedução. Assisto de camarote de vez em quando para constatar que assim tropeçam o pop - e o rock - mainstream. É, porque para o pop rock basta trocar a maquiagem, os saltos por botas e converses, as letras por uma choradeira sem fim ou por "rebeldia" de programa de auditório e por aí vai.
Há tempos vem ganhando espaço o discurso reacionário, cínico e escroto de que "todo mundo no fundo quer ser mainstream". É um alívio perceber que não é assim. Basta procurar fora dos cercadinhos de sugestões dos sites e emissoras manjadérrimos que você ainda acha o que quiser na internet mesmo, ou fora dela. Livros, por exemplo: que invenção deliciosa - quase comi um dia desses - mas não era meu. E, queiram ou não, escutem ou não, leiam ou não, felizmente existem ainda pencas de pessoas pelo mundo, de todo jeito, fazendo música, produzindo arte, cultura e conceitos que não caem no discurso da exaltação histérica de moda, fama, dinheiro, fofoca e drogas sem nenhum high. É, porque as drogas agora parecem produzir só lows: nenhum paraíso artificial, nenhuma porta da percepção se abrindo, intenção alguma de buscar o auto-conhecimento nas antípodas da mente, nenhum desejo poético, mesmo que escapista - consumo puro, simples e automático, desespero varrido pra debaixo dos tapetes de carros em alta velocidade rumo a lugar nenhum. Rituais de consumo de coisas, gente e substâncias. A música? Mais um ítem na lista de compras ou downloads.
Qualquer poética, arte, filosofia ou pequena idéia própria tendem a ser desprezadas: são coisas "chatas". São consideradas como algo de quem "quer aparecer" e "pose" - por quem só sabe fazer isso e não acredita em outro modo de vida e de ver o mundo que não seja o buraquinho que cavou para si mesmo. Todos playboys, e piorados, cada qual com o figurino padronizado de sua "tribo", em seu buraco mesquinho de toupeira.
Pobres toupeiras, aliás.
A escravidão que atinge a própria vontade, o desejo e a percepção, a escravidão celebrada - mas então porque tantos prozacs, ritalinas, cocaínas e rivotrils? Tá mesmo celebrando e feliz? Jura?!? Tá boa...
O que se faz quando quase todos os sonhos são de consumo?
Ainda estávamos nos livrando de traumas históricos quando outras porradas vieram. E o triste é que muitos já jogaram a toalha, jogaram os sonhos fora e se renderam ao cinismo ou à depressão - ou aos dois juntos, um disfarçando e sustentando o outro.
Por essas e outras, me afasto de vários cercadinhos e afirmo: SÓ O EXPERIMENTAL SALVA. Não o clichê de certo tipo de música experimental - grupo de caras aparentemente largados e teoricamente avessos a aparecer que fazem SEMPRE barulhos desconexos tendo como regras básicas "tem que soar esquisito e qualquer ritmo é proibido". Não, isso geralmente é chato mesmo e já é uma fórmula: portanto, nada experimental.
O que é experimental? Experimentar. Verbo, ação. Ousar jogar tudo fora e começar de novo, ou resgatar pedaços de passado para fazer algo diferente, novo e maravilhoso ao menos para quem o fez, como um filho. Por mais que venham a nascer crianças com carinha de joelho pelo mundo todos os dias, o seu próprio filho será sempre único e especial.
Porque em certos meios tornou-se tão estranho querer e fazer algo com esse espírito vivo, tão elementar? Porque isso é considerado pretensioso e egocêntrico e qualquer picaretagem oportunista com pose desprentesiosa é vendida como convincente? Porque "é de bom tom" deixar aparecer somente os "filhos" que tenham o rosto moldado à semelhança de uma das caras previamente catalogadas? A que interesses a discreta construção dessas "opiniões" servem?
Tentei algumas coisas, meio tateante e insegura, às vezes procurando o meu chão em territórios que não eram os meus, nem o que eu buscava; vacilei um tanto. Agora, eu sou sempre mais os filhinhos com cara de joelho de quem se arrisca, sou mais aquelas pessoas que acreditam, insistem e experimentam lá em um lugarejo perto das Cidades Invisíveis, onde o vento faz a curva e não volta mais, só quando já é um outro vento. Às vezes, isso é aqui do lado.
Não quero mais ouvir "qual é a boa da night", que algo é "fashion", "tendência", qual foi o "bafo", "nem te conto", etc. Também não quero mais ouvir falar de "bom e velho rock`n`roll", velho demais; de "influências da jovem guarda", idosa, simplória e cafona jovem guarda, resgatada por filhos das elites em contraste à bossa-nova e ao jazz que seus pais ouviam - melhores, por sinal. Não quero ouvir "não gosto de eletrônico" - como se quem dissesse isso soubesse algo a respeito, assim como eu sei falar javanês. Não quero, de forma alguma, ouvir papinho de "tem que ser de raiz". Raiz já era faz tempo, já criou asas e voou, virou fruto, sementes e outras árvores. Tudo isso está extremamente velho, caquético, corrompido, estúpido. Tudo isso é muito reacionário. Se apegar a isso é se agarrar a um defunto, zumbi fedorento devorador de cérebros e energia vital.
Também não quero acompanhar o naufrágio de boa parte de uma geração nova, cega, surda, tatibitati, com déficit de atenção e exibicionista que se encontra em shoppings, que NÃO pesquisa nada de transformador na internet ou fora dela, que NÃO se comunica pessoalmente e muito menos por celulares, msns e orkuts, que pensa que ouve ouve música vendo roupas e clipes e comportamentos impingidos, que olha pela janela do condomínio, olha as telas dos computadores, câmeras e TVs, olha nos espelhos, olha coisas demais e nada vê.
Não quero ouvir falar de nada, NADA disso por uns vinte anos, pelo menos.
Mas não será possível não ouvir e não falar e essa irritação e essa vontade só provam que escuto, e muito. Estou aqui e me importo, ouço e também falo, mesmo que ninguém escute: porque o contrário seria mais escapismo. Mas espera lá: sem beijos de emoticom e não me liga, por favor. Tu-tu-tu... offline muitas vezes é o que liga. Ou desliga, que é muito bom e necessário isso de se desligar.
2010 está ali na esquina e a década da Queda das Torres - e da queda em curso de toda uma Era afundada na exaltação inglória de consumismos e saudosismos - não vai me deixar saudades.
O Rio chove, lavando um pouco do sangue, do crack, dos helicópteros espatifados. Tristemente carrega também um pouco das cinzas de obras do Oiticica. "NYC ghosts and flowers" me faz chorar, e isso é bom. Obrigada, Lee Ranaldo.
Sei rir, mas não estou rindo à toa.

Leandra Lambert
Reader Comments (1)
Maravilhoso... Posso assinar embaixo? Concordo com tudo. E você escreve tão bem... seu estilo já é o avesso de tudo isso que você critica - e isso é perfeitamente sensacional.
Nunca deixe de escrever, quero sempre suas opiniões e ficções.