Curioso foi ver um artigo na revista da Cultura em torno do tema bom gosto/mau gosto musical e preconceito. Legal, bacana. Aos 14 ou 15 anos mandei uma carta pra uma revista sobre o tema, queria ter guardado uma cópia, pelo que eu me lembro permanece bem atual, tinha a ver com muito do que li por lá. Mas achei graça de algumas coisas na matéria, principalmente a de que os EMOS seriam vítimas de preconceito por usarem um visual "sombrio e andrógino" e fazerem um som "pauleira". Hahaha, não, por favor! Pode ser assim pra vovós crentes, ok... mas o pior é que, pensando por mais dois segundos, chega a me assustar concluir que pode ser isso mesmo - para jovens que já nasceram velhos, para jovens homofóbicos, burros e por aí vai... caramba. Então está cheio disso por aí, como foi possível perceber naquele episódio da menina de mini-saia pink naquela, ahn, universidade? Sinto-me um ET, de fato. É assustador.
A modinha EMO é deplorável por motivos opostos. Sem querer julgar os pobres adolescentes que caem como patinhos de franjão nessa desgraça - adolescência é um inferno - mas pegando pesado na crítica, porque acho necessário: os emos compram um pacote comportamental anódino que em nada lhes fortalece. Se vitimizam, se diminuem, são dóceis e domesticados, adoram shoppings e fofoca vazia de orkut, só vivem neles, falando de tinta no cabelo e afins. Visual sombrio e agressivo? Aonde? Aquela diluição infantilizada e abobalhada do punk e do pós-punk assusta alguém? Uma criança com um lençol fazendo "bu" consegue mais. Aliás, até a sexualidade é infantilizada entre emos, não deu pra perceber? Será que deu, deu mesmo? Melhor não... e aí esbarra-se também em outro aspecto da questão: a infância sexualizada. Pois é.
Mas voltando ao lado musical, que o assunto acima rende uma tese complicadíssima: música sempre foi um canal de libertação das amarras, de liberação dionisíaca, de descoberta de potências. Quando domesticam isso, quando domesticam o próprio desejo naturalmente conturbado dos adolescentes, que se torna restrito a meia dúzia de "opções" pré-moldadas... algo muito próximo de "escravidão" está acontecendo. É fácil ver que uma menina anoréxica ou bulímica está sofrendo um tipo de dor, alienação e desespero causados, em boa parte, por uma indústria de consumo que MASSACRA a formação de territórios mínimos de existência e identidade, que impõe - pela sedução - modelos impossíveis e terríveis. Talvez não seja tão fácil perceber que algo muito parecido está acontecendo com quem consome - e é consumido por - esse "kit" EMO: porque há uma maquiagem de rebeldia, de fora do padrão; mas é apenas um outro padrão, muito bem encaixotado como tantos outros. E aí... como pensar "outside the box"?
O que se chama de emo merece uma crítica pesada porque as músicas e atitudes não tem nada de inteligente, socialmente provocativo e esteticamente maldito - ao contrário de bandas antigas como Velvet Underground, The Stooges, Sex Pistols, Einstürzende Neubauten, Ministry, Atari Teenage Riot - só pra citar algumas com um visual que pode ser chamado de "andrógino" ou "perigoso". Mas nunca se restringiram ao visual, longe disso - muito menos aceitaram o pastiche inofensivo desse visual. E hoje em dia? Tem muita gente doida-no-bom-sentido, malucos espertos por aí - porque emos não usam a internet pra isso, pra descobrir música nova independente que não toca nos 3 ou 4 canais de TV que assistem? GIMME DANGER, people!
A "marca fantasia EMO" esvazia, pulveriza possibilidades de trangressões e brechas pra quem compra o pacote, anestesia com uma lamúria diluída e algum barulho genérico de fundo - que VENDE, e muito. Emo é um segmento MAINSTREAM, só parece estranho e underground pra quem não se deu ao trabalho de perceber a fragilidade do pastiche, convenhamos. Por ser tão anódino e sem substância, vira alvo fácil de piada, vitimiza ainda mais. É um tremendo caô vendido a adolescentes deprimidos, coitados. Coitados? Pois é, porque se deixam ser tão coitados, PORRA?! Adolescência é um inferno - mas há meios de se tirar força daí. Para tal, há que assumir a insatisfação, há que desejar algo mais do que a porcaria que te empurram com um aromatizante docinho goela abaixo, há que chutar uns baldes e buscar um tanto de autonomia, auto-estima, vontade de ver mais, ouvir mais, dizer mais, entender mais.
Estão conseguindo matar até isso nos adolescentes? E pra tirar um troco fácil, é isso?
Perplexidade, mais uma vez.